Anotações Manuel de Roteiro

Manual de Roteiro, ou Manuel, o primo pobre dos manuais de cinema e tv/ Leandro Saraiva e Newton Cannito; São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2004.

 

Tres Reis (Three Kings, David O. Russel, 1999). Filme interessante sobre o Iraque.

 

“Já em Houve uma vez dois verões, a mesma frase- ‘eu to grávida’- é repetida por Roza em diferentes situações, mas a cada vez com um sentido dramático diferente, marcando assim a evolução da  história de sua relação com Chico e sua transformação: na primeira ela é uma simples golpista; na segunda, alguém que quer fugir de uma relação amorosa na terceira, uma mulher apaixonada que aceita o amor do rapaz” Pág 214.

 

“Antecipações são pistas do que vai acontecer, piadas ou impactos dramáticos de efeito retardado. Espécie de bomba-relógio narrativa, que provoca ou uma risada retrospectiva ou aquele ‘ah, então foi por isso que lá atrás aconteceu tal coisa ou fulano disse aquilo’!”.Pág. 210.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       

“(…) o objetivo do trabalho da escrita do roteiro é dar forma visível a uma percepção, sobre algum aspecto da vida (…)”. Pág. 207

 

“Funcionamos, assim, buscando padrões de repetição e variação.Por isso existe a matemática, a cerâmica marajoara ou a coreografia. Um artista é um sujeito capaz de criar formas, padrões que provocam o interesse de seus semelhantes.

As narrativas são formas temporais, como a música. O que quer dizer que seus padrões formais são perceptíveis no tempo, e isso, por si só, provoca-nos prazer. Lévi-Stratus, talvez o maior estudioso de mitos que o mundo já viu, compara as estruturas (padrões de repetição e varição) dos mitos com os padrões musicais, e diz que mitos e músicas são ‘máquinas de suprimir o tempo’, justamente porque recolhemos os elementos dispostos ao longo do caminho, e uma espécie de cristal vai se formando em nossa mente.” Pág. 207.

 

Levis-Strauss. O cru e o Cozido. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

 

“Num primeiro momento, o roteirista tem a obrigação de romper com o limite imposto pela ‘realidade’ imediata e libertar sua criatividade, sem nenhuma barreira. Cabe a você, roteirista, ter a ousadia de pensar diferente, de inventar relações”.Pág 196.

 

“O roteirista não precisa ficar preso ao nosso padrão médio de realidade. No universo que ele está construindo, tudo é possível, desde que faça sentido no projeto do filme”. Pág 194.

 

 

 

- sobre a disgressão modernista sobre o espaço.

 

“No pós-guerra ,os neo-realistas italianos- Paisà (Roberto Rossellini, 1946) e Alemanha Ano Zero (Germânia Anno Zero, Roberto Rossellini, 1947), são exemplares- retraram o mundo devastado através de personagens que perambulavam, perdidos entre ruínas, sem rumo (sem ação dramática), e fizeram também suas câmeras perambularem, tornando o cineasta mais um personagem ‘em busca’.” Pág. 197

 

“Jorge Furtado, que é um mestre no uso da voz off, disse o seguinte num debate recente sobre o trabalho de roteirista: ‘Veja se a cena se mantém bem sem a voz off. Se ela se mantém, mantenha também a voz.’ Ou seja, deste modo as palavras não são muletas: a cena não está sendo explicada, mas enriquecida por uma nova dimensão.” Pág. 193.

 

- diálogos e comportamentos.

“(…) assim como na vida, as ações dos personagens podem dizer muito mais a respeito deles do que suas falas.”Pág. 186

 

“Uma cena pode ser bastante rica se a ação de um personagem vai no sentido oposto do que ele fala.”Pág. 187.

 

“Cuidado com as falas certinhas, corretas, com entonação perfeita e raciocínio completo. Pense na fala comum, cotidiana: você, no seu  dia-adia, usa frase completas, com raciocínios irretocáveis? Você diz tudo diretamente, sem floreios verbais ou gestuais?”Pág 189.

 

“Mas o roteirista tem de saber o que o personagem não sabe, e mostrar também isso. Aliás, uma das riquezas da expressão dramática são os sinais não concientes de relações e conflitos. É muito comum que a uma ação determinada de um personagem corresponda a uma reação de energia não controlada.” Pág. 189.   

 

-Cenas: linhas dramáticas.

 

“Cenas sem tensão dramática têm função de distenção (pausa,respiro) dentro de uma curva dramática, e é interessante que não sejam puras ‘cenas de transição’, mas agreguem algo, sirvam como digressão que comenta algo e enriquece a narrativa.”Pág. 164

 

“Assim como uma cena não-dramática interrompe o fluxo da progressão, acrescentando uma outra dimensão à narrativa, também dentro da cena pode haver esse deslocamento, esa intervenção do narrador, fazendo o espectador dar o tal passo atrás e ver além (por baixo,por trás, através,etc.) da quarta parede. Na cena isso pode acontecer tanto por interpolações (como ocorrer entre cenas), como de modo simultâneo, no corpo da própria cena.”Pág 176.

 

“(…) se mudarmos de ângulo, todas as sacanagens do mundo são dignas de compaixão.”Pág. 177.

 

-Melodrama.

 

Sendo um vale de lágrimas o Melodrama não se importa muito com a unidade dramática..” Pág 85.???

 

Filme fundador do melodrama. Órfãos da tempestade de Griffith.

 

“O sofrimento infinito do herói (o pathon) é a base para que o melodrma dê o seu recado moral. Porque é disso que se trata: uma peça moralista. O melodrama tenta tornar visível uma ordem moral num mundo aparentemente sem sentido”Pág 86.

 

 

 

                                                                                                       

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