A minha história da Olhar Eletrônico. Marcelo Tas.
Made in Brasil. três décadas do vídeo brasileiro. Arlindo Machado (Org.)- São Paulo: Itaú Cultural, 2003.
“O encontro com aquele mostro barulhento selou definitivamente minha escolha profissional. Era tudo o que eu nunca tido coragem de sonhar: uma máquina de manipular sons e imagens para contar histórias. Uma espécie de cruzamento sexy entre os dois equipamentos que eu mais utilizava na época: a calculadora e o fliperama”.Pág. 218
“Novamente, aquelas imagens diferentonas saltando da tela do televisor da sala de visitas lotada de gente balançaram a minha alma. Tive certeza que ali tinha alguma coisa muito importante acontecendo”.Pág. 218.
“Tv Gazeta, 22 de Agosto de 1983. A estréia da Olhar Eletrônico foi uma farra, Goulart fez um discurso de abertura e entregou pra Deus. O programa teve de tudo: dois começos, porque achamos que faltou ritmo na largada, desfile de moda com alguns dos meninos dos Titãs como modelos e uma câmera na rua pedindo para as pessoas falarem sobre a morte delas próprias”.Pág. 220.
“Todos nós saíamos para ‘fazer rua’, como dizíamos na época. Mas foi Barbieri que aperfeiçoou o formato, em dupla com Paulo Morelli na câmera e na troca de idéias. Renato e Paulão eram autênticos pescadores de filósofos populares pelas ruas de São Paulo. Sabiam com ninguém criar silêncios entre a pergunta e a resposta, gerando longas pausas reflexivas que desconcertavam os entrevistados e os telespectadores. Era um timing bem esquisitão para o padrão da Tv da época. Com quase toda a obra da Olhar, ainda é um material bastante vivo e inusitado de ver”.Pág.220.
“O ‘Cultural’ permitia que, antes de entrar no ‘horário comercial’ da semana, o grupo desse uma parada para ficar três a quatro horas mergulhado em Platão, Freud, Mazzaropi.. ou estudar astronomia, botânica ou os filmes de Buster Keaton. No inicio de cada ciclo escolhíamos em votação sempre polêmicas e barulhentas a pauta do próximo semestre. O ‘cultural’ não era um mero diletantismo juvenil. Mas uma vontade coletiva de criar um campo magnético para nossas conversas e relacionamentos. Uma plataforma de links para outros assuntos fora da rotina mesquinha do cotidiano. Era uma brincadeira levada a sério. Não se admitiam atrasos. E havia sempre um de nós anotando os insights da reunião num livrão preto. Bastante ousados e caras de pau, escrever na primeira página o objetivo do grupo: revolucionar a TV do terceiro milênio!” 221.
“Daqui de longe, reconheço duas pequenas contribuições da experiência valeresca para a linguagem televisiva. A primeira delas foi abordar temas ‘sérios’ com humor. O personagem de mentira trazia perguntas simples, ingênuas e diretas para os personagens da história de verdade que passava na frente da câmera do varela. Num mundo já complexo e confuso, era um alívio alguém fazer pergunta que o telespectador queria, mas nunca podia fazer”.Pág. 229.
“A segunda contribuição varelesca foi a de provocar um novo formato de telejornalismo. Com já disse, a ilha de edição era o verdadeiro altar da Olhar Eletrônico. Lá nós passávamos dias e noites cutucando os botões da máquina e sos dos nossos cérebros atrás de novas formas de contar uma história na televisão. Com o varela radicalizamos a participação da câmera, o tal ‘Olhar Eletrônico’, na história”.Pág. 222.
“Ao contrário do credo do jornalismo tradicional, não tínhamos nenhum receio de misturar ficção, realidade e até o próprio cameraman na edição da narrativa. Varela começou a pensar alto e conversar diretamente com o cameraman. Assim surgiu mais um personagem de ficção, a contrapartida ideal para as estripulias do repórter, o câmera Valdeci.”Pág. 223
-Crig-Rá.
Programa produzido pela Olhar Eletrônico em 1984. Semanal, dedicado ao público juvenil.
“O Crig-Rá se autodenominava o ‘melhor programa de rádio da Tv brasileira’. A minha participação no programa era suave mas bastante divertida. Fazia um personagem que era o apresentador do programa. Era um ser totalmente eletrônico, gravado em estúdio, com todos os efeitos que a tecnologia da época dava direito. Como uma crítica irônica, usava os bordões e o jeito animadinho dos DJs das rádios FM. O nome dele era uma síntese de todas as lanchonetes de fast food da época: Bob mac Jack.” Pág. 224.
- Marcelo fala que o grupo fazia uma televisão “de autor.” Pág. 225.
“Também no inicio da década de 1990, o repórter Ernesto Varela Foi parar na MTV. No mês de estréia da emissora norte-americana de clipes no Brasil, Varela ancorou a série Netos do Amaral. Era uma paródia divertida das antigas viagens ufanistas capitaneadas pelo repórter Amaral Neto durante a época da ditadura no país.” Pág. 225.
“Em 1998, uma invasão de ex-Olhares na Tv Gazeta criou e realizou o TV Mix, um longo programa que misturava jornalismo com variedade ao vivo ancorado de um estúdio na avenida Paulista. Além do formato inusitado de estúdio-redação, algo incomum na época, foi também a primeira experiência na TV brasileira de uma equipe telejornalística com apenas uma pessoa: o videorréporter. Pág. 225.”
“Hoje, 20 anos depois, vejo em vários lugares as ramificações daquela linguagem audiovisual iniciada lá atrás na Praça Benedito Calixto. A Olhar Eletrônico continuou e continua presente na Tv, no cinema e no trabalho individual e coletivo dos seus ex-integrantes. Mas só o tempo vai responder quando e em medida foi atingida a intenção daquela molecada metida e ambiciosa- ‘revolucionar a TV do terceiro milênio’- rabiscada com grande entusiasmo no livrão preto do ‘Cultural’”. Pág. 226.